Como o Super El Niño ameaça o Banco do Brasil (BBAS3) e o setor de seguros?

Fenômeno climático ameaça produção agrícola e pode forçar revisões para baixo no lucro da instituição



20 de maio de 2026

Por InfoMoney
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O Bank of America (BofA) divulgou um relatório de análise setorial nesta terça-feira (19), relatando como o El Niño pode impactar sobre o mercado financeiro brasileiro. 

Os analistas ressaltam que as projeções meteorológicas apontam para a ocorrência de um fenômeno consideravelmente mais forte do que o previsto no ciclo de 2026 e 2027, o que traz riscos severos para a produção no campo. 

Dentro desse contexto, o BofA reiterou sua posição sobre algumas companhias dentro da cobertura. Em especial, diante da elevada exposição da carteira de crédito rural do Banco do Brasil (BBAS3), a instituição financeira manteve a recomendação de venda para os papéis do banco.

Efeito cascata

O relatório do BofA explica que o risco para a instituição financeira estatal decorre de um efeito cascata que afeta diretamente a capacidade de pagamento dos produtores rurais. 

“Historicamente, tais eventos trazem chuvas excessivas para a região Sul do Brasil e condições mais secas e quentes para o Centro-Oeste, interrompendo a produção de grãos”, diz o relatório do BofA. Essa quebra climática impacta diretamente o cultivo de soja e milho, culturas que respondem por 85% da colheita nacional.

Além do clima desfavorável, o fluxo de caixa dos agricultores sofre com custos de insumos elevados, impulsionados pela alta internacional dos fertilizantes em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio. 

O documento reforça que o cenário atual já é marcado por margens operacionais apertadas, endividamento alto e taxas de juros elevadas.

“Caso um Super El Niño se materialize, esperamos uma pressão adicional no fluxo de caixa dos produtores rurais, atrasando a recuperação do setor e aumentando as necessidades de provisionamento dos bancos”, afirma o documento. 

Por ser o banco com maior exposição ao agronegócio, o Banco do Brasil fica diretamente vulnerável à escalada da inadimplência.

Fora a estatal, os bancos ABC Brasil (ABCB4) e Banrisul (BRSR6) também compartilham de uma forte exposição ao agronegócio e enfrentam dinâmicas semelhantes. Com o risco de renegociações mais complexas e pressões estruturais na carteira de crédito, o documento detalha a manutenção da recomendação de venda para ambos os papéis rurais.

“A piora na qualidade dos ativos pode se traduzir em maiores provisões para os bancos; Banco do Brasil, ABC Brasil e Banrisul são os mais expostos ao setor e, portanto, sujeitos a revisões para baixo nos lucros”, destaca a análise.

Impactos no setor de seguros

O relatório do Bank of America estende essa sinalização para além dos bancos mencionados, mapeando como o clima deve afetar o balanço de outras instituições de crédito e companhias de seguros. 

No segmento de seguros, os analistas apontam que as chuvas acima da média histórica devem elevar consideravelmente a frequência de sinistros nos ramos residencial, rural e de automóveis. 

A Porto Seguro (PSSA3) e a BB Seguridade (BBSE3) aparecem como as empresas mais vulneráveis do setor devido à alta concentração de suas operações nessas carteiras específicas. 

Os analistas reforçam que, historicamente, os ciclos de El Niño causaram aumentos de 2 a 3 pontos percentuais na sinistralidade dessas coberturas ao longo da última década. 

De acordo com os modelos de sensibilidade do relatório, cada acréscimo de 100 pontos-base nessas taxas de sinistros tem o potencial de reduzir os lucros dessas companhias em aproximadamente 1%, o que justifica a manutenção da recomendação neutra para as duas ações.

Como contrapartida defensiva dentro da cobertura climática, os analistas destacam a Caixa Seguridade (CXSE3) como uma alternativa atraente, pois possui menos sensibilidade com o fenômeno climático. 

Essa blindagem parcial contra o impacto dos sinistros rurais e automotivos garante maior resiliência aos lucros da empresa, consolidando o ativo como a única indicação de compra do setor avaliado pelo BofA.

Pressão na inadimplência

Com todo o possível estresse financeiro no campo, o BofA também prevê um avanço nos indicadores de atrasos nos pagamentos (NPL) para os próximos trimestres, o que vai exigir uma postura mais defensiva das instituições credoras.

“Como resultado, continuamos a esperar maiores renegociações de empréstimos e maiores índices de inadimplência, exigindo maiores provisões dos bancos”, aponta o relatório. 

O BofA complementa de forma indireta que, apesar a criação de programas extraordinários de renegociação de dívidas possa aliviar temporariamente as taxas oficiais de calotes, a pressão estrutural sobre o produtor rural persistirá, ameaçando estender a deterioração dos ativos até o ciclo de 2027 e 2028.

Análise de valorização

Em razão da vulnerabilidade climática de sua principal carteira, o Bank of America optou por assegurar a sua recomendação equivalente a Venda para a empresa:

  • Recomendação: Venda
  • Preço-Alvo: R$ 23 (US$ 4,3 por ADR), com um múltiplo de preço sobre valor patrimonial (P/BV) alvo de 0,7 vez para o ano fiscal de 2026.

Além disso, o documento discrimina os fatores operacionais e macroeconômicos que podem alterar a percepção de valor do banco estatal no mercado de capitais:

  • Riscos de baixa: os principais gatilhos apontados são a possibilidade de interferência do governo na condução estratégica e operacional do negócio, falhas na execução da gestão e uma deterioração ainda mais intensa das condições econômicas do setor agrícola;
  • Riscos de alta: o preço das ações pode surpreender positivamente caso o crescimento da carteira de crédito venha acima das projeções, ocorra uma diminuição nas despesas com provisões para devedores duvidosos ou a margem financeira de mercado apresentando maior resiliência.



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