26 de maio de 2026
Por 🏆 Arthur Moraes
Durante décadas, o mercado de seguros brasileiro construiu uma reputação sólida em capacidade técnica, gestão de risco e especialização. Ainda assim, existe um paradoxo difícil de ignorar: o setor evoluiu muito em conhecimento, mas pouco em penetração. O seguro cresceu menos do que poderia porque, em muitos momentos, continuou complexo demais para um consumidor cada vez mais acostumado a experiências simples, rápidas e personalizadas.
É justamente nesse ponto que a aquisição da TEx, empresa brasileira de tecnologia especializada no mercado de seguros, pela Serasa Experian começa a desenhar uma nova fase para o setor. Mais do que um movimento corporativo, a união representa a aproximação entre dois mundos que passaram os últimos anos tentando resolver a mesma pergunta: como transformar proteção em algo mais acessível, inteligente e conectado ao comportamento real das pessoas?
De um lado, a TEx consolidou-se como uma das principais estruturas tecnológicas do mercado segurador brasileiro, desenvolvendo APIs, motores de cotação, soluções de distribuição e plataformas de inteligência utilizadas por corretoras e seguradoras em todo o país. Do outro, a Serasa Experian construiu uma das maiores operações de inteligência analítica e comportamento de consumo do Brasil, apoiada em uma base massiva de dados e décadas de expertise em crédito, antifraude e análise de perfil de consumo.
Para Emir Zanatto, Head de Seguros da Serasa Consumidor, o movimento nasce justamente da combinação dessas competências.
“O objetivo central é único: unir distribuição inteligente com dado vivo. Quando você combina a infraestrutura de seguros da TEx com a inteligência analítica da Serasa, o resultado é uma jornada que entende o consumidor antes mesmo de ele perceber que precisa de proteção”, afirma.
O mercado enxerga essa movimentação em um momento particularmente simbólico. O consumidor brasileiro já incorporou jornadas digitais em praticamente todos os setores da vida financeira: do PIX aos bancos digitais, dos investimentos via aplicativo às compras instantâneas. O seguro, porém, ainda carrega processos lentos, excesso de etapas e experiências fragmentadas.
Na prática, a transformação proposta pela integração TEx + Serasa Experian tenta atacar justamente os entraves que há anos dificultam a experiência no seguro. Cotação demorada, dificuldade de distribuição, precificação baseada em médias genéricas e jornadas desconectadas seguem entre os principais gargalos de um setor que busca crescer sem perder eficiência.
Segundo Emir, o dado deixa de ser apenas informação e passa a atuar como motor estratégico da relação entre consumidor, corretor e seguradora.
“Hoje, muito esforço comercial é gasto perseguindo o cliente errado, no canal errado, com a oferta errada. Quando você combina dado de comportamento com infraestrutura de distribuição, o corretor deixa de ser caçador e vira gestor de carteira inteligente”, explica.
Esse talvez seja um dos pontos mais sensíveis, e também mais importantes, dessa nova fase do mercado. Em meio ao avanço da inteligência artificial, automação e digitalização, parte do setor passou a enxergar a tecnologia como ameaça direta ao papel do corretor. Emir faz a leitura oposta.
Para ele, o que a tecnologia substitui não é a relação humana, mas o excesso de tarefas repetitivas que historicamente consumiram o tempo do profissional.
“O corretor que vai prosperar nessa nova fase é o que entende que tecnologia é tração, não ameaça. Tem espaço para todos, pequeno, médio e grande. Quem se posicionar assim agora chega em 2030 maior do que está hoje”, diz.
A lógica é relativamente simples: quanto mais automatizados estiverem os processos operacionais, maior tende a ser o espaço para atuação consultiva. O corretor passa a atuar menos como operador de cotação e mais como especialista em proteção, gestão de risco e planejamento patrimonial.
Nesse cenário, a inteligência de dados ganha múltiplas funções. Ela ajuda a entender perfil de consumo, comportamento de pagamento, propensão de compra, risco de sinistro e até momentos de vida capazes de gerar novas necessidades de proteção. Ao mesmo tempo, fortalece mecanismos antifraude e melhora a eficiência da precificação.
Mas talvez a transformação mais profunda esteja na forma como o seguro será ofertado daqui para frente.
O modelo tradicional de apólices padronizadas, vendidas de maneira uniforme para diferentes perfis de consumidores, começa a perder espaço para produtos mais contextuais, modulares e dinâmicos. Proteções acionadas conforme o uso, coberturas embarcadas em jornadas digitais e ofertas feitas no momento exato da necessidade tendem a ganhar protagonismo nos próximos anos.
“O consumidor mudou. Hoje ele assina streaming, paga só pelo carro que usa em uma viagem, contrata aluguel por hora. A próxima década vai ser dominada por produtos modulares, contextuais e dinâmicos”, avalia Emir.
Nesse novo desenho, o desafio deixa de ser apenas tecnológico e passa também por confiança. Afinal, personalização depende diretamente do uso responsável de dados.
Por isso, Emir reforça que inovação, experiência do cliente e governança precisam caminhar juntas.
“O consumidor precisa saber qual dado está sendo usado, para qual finalidade, e ter controle sobre essa autorização. Cliente que se sente perseguido pelo dado não compra; cliente que se sente atendido pelo dado vira recorrente”, afirma.
Outro ponto relevante da integração é o impacto potencial para pequenas e médias corretoras. Historicamente, as tecnologias mais sofisticadas do setor chegavam primeiro aos grandes players. A proposta agora é democratizar acesso a ferramentas que antes exigiam investimentos altos e estruturas robustas.
Motor de cotação, qualificação de leads, jornadas digitais, inteligência antifraude e análises comportamentais passam a entrar no radar também do corretor médio e pequeno, inclusive em mercados regionais.
E existe um motivo estratégico para isso: boa parte da próxima onda de crescimento do seguro brasileiro tende a vir justamente desse “meio do mercado”, formado por corretoras independentes que conhecem profundamente seus clientes, mas que precisam ganhar escala operacional e inteligência comercial para competir em um ambiente cada vez mais digital.
No fundo, a aquisição da TEx pela Serasa Experian sinaliza algo maior do que uma simples consolidação de mercado. Ela revela uma mudança estrutural na lógica do seguro brasileiro: o setor começa a sair de uma era centrada apenas em produto para entrar em uma era centrada em comportamento.
E, nesse novo cenário, a tecnologia deixa de ser apenas ferramenta. Passa a ser ponte entre dado, proteção e relacionamento humano.
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