Afresco de São Jorge escondido por 380 anos reacende alerta sobre proteção de patrimônios históricos

Recente descoberta de um afresco de São Jorge matando o dragão reacendeu uma discussão



3 de junho de 2026

Por CQCS
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A recente descoberta de um afresco de São Jorge matando o dragão, atribuído ao pintor italiano Aniello Falcone e escondido por cerca de 380 anos na Igreja de San Giorgio Maggiore, em Nápoles, reacendeu uma discussão que vai além da arte e da preservação histórica. O caso chama atenção para um tema pouco debatido: como museus, igrejas, fundações e colecionadores protegem patrimônios que podem ganhar enorme relevância histórica e financeira após novas análises ou descobertas.

Para Ricardo Minc, Diretor de Mídia, Esportes, Entretenimento e Espécies da Howden Brasil, o episódio evidencia um dos principais desafios do seguro de obras de arte: a dificuldade de determinar o valor real de um patrimônio que pode ser reavaliado ao longo do tempo.

“Se esse afresco tivesse sido destruído um dia antes de sua descoberta, provavelmente haveria uma grande discussão sobre qual seria o valor correto para fins de indenização. O patrimônio cultural está em constante transformação e uma nova informação histórica pode alterar significativamente a percepção de valor de uma obra”, afirma.

Segundo o executivo, uma das confusões mais comuns é acreditar que o seguro patrimonial de uma igreja ou museu automaticamente protege as obras existentes no local.

“Na prática, pinturas, esculturas, imagens sacras, manuscritos, pratarias históricas, vitrais e outros bens culturais normalmente exigem uma análise específica e, muitas vezes, uma apólice especializada de Fine Art. O risco da obra de arte é diferente do risco do edifício. Enquanto o imóvel pode ser reconstruído, muitas obras são únicas e insubstituíveis”, explica.

Outro ponto destacado por Minc é que não existe um modelo único para a contratação desse tipo de seguro. Algumas apólices trabalham com valor previamente acordado entre segurado e seguradora, enquanto outras utilizam o valor de mercado da obra no momento do sinistro.

“Muitas pessoas acreditam que o valor acordado é sempre a melhor solução, mas isso nem sempre é verdade. Imagine que o afresco tivesse sido segurado décadas atrás por um valor definido quando ainda era considerado apenas uma pintura sem grande relevância. Uma eventual indenização poderia refletir uma avaliação antiga e desatualizada”, observa.

Ele ressalta que obras de arte podem se valorizar por diferentes razões, como autenticação, descoberta histórica, reatribuição de autoria, participação em exposições relevantes ou aumento do interesse internacional pelo artista.

Além da questão financeira, o especialista lembra que os maiores riscos nem sempre estão ligados a incêndios ou roubos, situações que normalmente recebem mais atenção do público.

“Grande parte dos danos ocorre durante transporte, manuseio, montagem de exposições, limpeza, restauração ou movimentação interna do acervo. É muito mais comum uma obra sofrer danos durante uma operação rotineira do que uma coleção inteira ser destruída por um incêndio”, afirma.

Outro desafio envolve empresas terceirizadas contratadas para atuar em museus, igrejas e instituições culturais. Segundo Minc, muitas delas possuem seguros de responsabilidade civil que não contemplam adequadamente danos causados a obras de arte.

“Não basta exigir que o prestador de serviço tenha seguro. É preciso analisar os limites, as exclusões e verificar se a cobertura realmente é compatível com o valor e a complexidade do patrimônio que está sendo manuseado”, alerta.

Para o executivo, a principal lição deixada pela descoberta em Nápoles é que a proteção adequada de patrimônios históricos exige planejamento constante, avaliações periódicas e acompanhamento especializado.

“O maior desafio não é encontrar uma apólice. É encontrar a apólice correta. Cada acervo possui características próprias e exige uma estratégia específica de proteção. Nesse contexto, o papel do corretor especializado é fundamental para ajudar instituições e colecionadores a construírem uma proteção compatível com a realidade do patrimônio segurado”, conclui.

A descoberta do afresco de São Jorge mostra que o verdadeiro valor de uma obra nem sempre é visível. E, justamente por isso, a melhor hora para protegê-lo costuma ser antes que ele seja revelado ao mundo.




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