24 de abril de 2026
Por 🏆 Julia Schneider
Gosto muito de documentários porque eles nunca passam ilesos por mim. Sempre deixam alguma coisa. São filmes da vida real, que mostram histórias, mistérios, dilemas, perspectivas, deslocam a gente do nosso lugar e, de repente, o mundo se amplia. Alguns incomodam, provocam. Outros abraçam.
Foi exatamente isso que senti ao assistir O Fim e o Princípio, documentário brasileiro de 2006 dirigido pelo genial Eduardo Coutinho.
O filme começa como quem não quer nada. Ou melhor: como quem não sabe exatamente o que quer encontrar. Totalmente sem roteiro, sem personagens definidos, sem tema, a equipe do documentarista chega ao sertão da Paraíba em busca de histórias. Mas o que encontra não são apenas histórias. É um jeito de viver. Um tempo que passa diferente. Um modo de dizer o mundo.
No Sítio Araçás, em São João do Rio do Peixe, a vida parece acontecer em outro ritmo. Não há pressa nas falas, nem urgência em impressionar. Pelo contrário: há pausas, silêncios, casas simples, pé no chão, poeira, rotinas de uma vida inteira. Há gente que fala pouco, gente que fala para dentro, gente que nem entende muito bem por que aquela câmera está ali. Mostra um mundo cheio de histórias e saberes em vias de desaparecimento.
Aos poucos, o filme vai ensinando uma coisa que a gente insiste em esquecer: o extraordinário não mora no evento grandioso, no discurso elaborado ou na narrativa perfeita. Ele mora mesmo é no comum.
Mora na repetição dos dias, no vem e vai da rotina, na fé silenciosa, na música, nas pessoas. Mora nas palavras e ditados populares que parecem simples, mas resumem tudo. Mora na forma como um senhor de noventa anos relembra sua história, ou no casal que escolheu o companheirismo durante décadas. Mora nas memórias.
Mora, principalmente, na maneira simples, calma e despretensiosa com que aquelas pessoas conversam e, sem perceber, oferecem ensinamentos que não caberiam em nenhum manual. Há algo de muito potente nessa simplicidade. Não é pobreza de conteúdo. É exatamente o oposto.
O Fim e o Princípio não entrega uma grande conclusão. Não fecha um raciocínio. Não resolve uma tese. E ainda bem. Ficou pra mim como um lembrete silencioso, mas insistente: talvez a vida não esteja nos grandes acontecimentos que esperamos, mas nos pequenos encontros que quase deixamos passar.
Que todos nós possamos enxergar melhor e nunca esquecer que o extraordinário está aqui, bem perto.
• Onde assistir: Youtube, Prime Video
VEJA TAMBÉM
Retrato ambicioso busca traduzir no cinema a grandiosidade e o legado imortal de Michael Jackson
A Vizinha Perfeita vai além do crime e transforma o espectador em testemunha de um incômodo dilema sobre a lei
Filme da Netflix mostra que diante do medo, não buscamos respostas, buscamos culpados.





