26 de fevereiro de 2026
Por 🏆 Julia Schneider
A chegada da nova adaptação do clássico Frankenstein, de Mary Shelley, revisitado desta vez pelo cineasta Guillermo del Toro, traz um olhar que dialoga tanto com o horror clássico quanto com reflexões bastante contemporâneas. O filme, disponível na Netflix, reconstrói o romance gótico de 1818 com rigor estético e uma fluidez maravilhosa: fotografia sombria, direção de arte minuciosa, trilha inquietante e atuações magnéticas. Indicado ao Oscar 2026 em diversas categorias, incluindo Melhor Filme, a produção rapidamente se consolidou como uma das mais comentadas da temporada, tanto pela força visual quanto pela densidade emocional.
No enredo já conhecido, acompanhamos a trajetória do jovem cientista Victor Frankenstein, obcecado pela ideia de vencer a morte, que cria uma criatura a partir de partes de corpos humanos. A criatura ganha vida e, com ela, iniciam os dilemas. Del Toro constrói uma criatura menos monstruosa e mais dolorosamente sensível. O horror não está apenas na aparência do ser criado, mas na rejeição que ele sofre. A violência não nasce da diferença, mas da incapacidade humana de lidar com ela.
Mais do que revisitar um mito literário, esta versão nos empurra para uma pergunta desconfortável e profundamente atual: afinal, o que significa ser humano?
A criatura, abandonada à própria sorte, aprende sobre o mundo pela dor. E cada gesto de exclusão que sofre revela menos sobre ela e mais sobre nós. O verdadeiro monstro, sugere o diretor, pode ser a indiferença. Pode ser a vaidade intelectual que cria, mas não assume consequências. Pode ser a sociedade que exige perfeição e pune o que escapa ao padrão.
Há, também, uma camada profundamente emocional na narrativa. A solidão da criatura, seu desejo de pertencimento, de afeto, de reconhecimento, atravessa a tela com uma força silenciosa. Visualmente arrebatador e emocionalmente perturbador, o filme é uma experiência que ultrapassa o entretenimento. Ele provoca. Convida à introspecção. Nos faz refletir sobre ciência e ética, sobre paternidade e responsabilidade, sobre alteridade e empatia.
Assistir a Frankenstein não é apenas revisitar um clássico da literatura sob nova estética. É encarar um espelho. E talvez finalizá-lo com uma inquietação necessária: se a criatura é fruto de seu criador, que tipo de mundo estamos criando? E que tipo de humanidade estamos dispostos a reconhecer?
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