7 de maio de 2026
Por 🏆 Arthur Moraes
Ela não saiu na primeira ameaça. Nem quando o medo começou a fazer parte da rotina. Como tantas mulheres, ficou. Ficou presa a uma violência que nem sempre deixa marcas visíveis, mas que se instala no controle, nas palavras e na sensação constante de insegurança. Moradora de uma comunidade de Belo Horizonte, com mais de 50 anos e dois filhos ainda pequenos, viveu anos sem reconhecer que estava em um ciclo de violência doméstica, e, principalmente, sem saber como sair dele.
A situação ficou ainda mais difícil quando uma enchente destruiu a casa onde viviam, aprofundando a vulnerabilidade da família. Foi só depois de participar, por meses, de rodas de conversa do Instituto Filhas de Sara, ONG de apoio às mulheres em situação de violência doméstica, que ela conseguiu entender o que estava vivendo. No espaço de escuta e acolhimento, encontrou algo que não tinha há muito tempo: clareza e, aos poucos, coragem.
Com o apoio da organização, teve acesso a atendimento psicossocial, orientação jurídica e acompanhamento contínuo. Conseguiu medida protetiva, a guarda dos filhos, acesso ao aluguel social e começou, passo a passo, a reconstruir a própria vida. No início, duvidou de si mesma, especialmente diante da oportunidade de voltar ao mercado de trabalho. Mas tentou.
Hoje, está empregada, é reconhecida no ambiente profissional e vê o filho mais velho iniciar a universidade. A rotina ainda carrega desafios, mas já não carrega medo. Mais do que sair da violência, ela conseguiu reescrever a própria história, com dignidade, autonomia e a chance real de recomeçar.
Quando o risco está dentro de casa
A história dela reflete uma realidade estrutural, dura, repetida e, muitas vezes, invisível. A cada dia, quatro mulheres são assassinadas no Brasil, a maioria em seus próprios lares, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025. No mesmo período, a Central de Atendimento à Mulher, Ligue 180, registrou mais de 1,08 milhão de atendimentos, quase 3 mil por dia, com 155 mil denúncias formais de violência, uma média diária de 425 casos.
Os números escancaram a dimensão do problema, mas também revelam um ponto ainda pouco explorado: como garantir proteção concreta para essas mulheres em meio à violência e, principalmente, nos momentos em que precisam tomar decisões urgentes.
É nesse espaço que o mercado de seguros começa a se mover.
Do patrimônio à vida: o seguro reposiciona seu papel
Romper o ciclo da violência não é apenas uma decisão emocional. É uma decisão prática, que envolve moradia, renda, proteção, acesso à informação e uma rede de apoio estruturada. É nesse ponto que muitas trajetórias se interrompem, ou retornam ao ponto de origem.
Para Claudia Helena de Oliveira, presidente do Instituto Filhas de Sara, essa é a realidade cotidiana de quem atua na linha de frente. “Todos os dias, atendemos mulheres que chegam sem renda, sem rede de apoio e, muitas vezes, sem segurança para voltar para casa”, afirma.
Segundo ela, o enfrentamento exige respostas imediatas. “Não se trata apenas de indenização futura, mas de garantir suporte concreto no momento da ruptura.”
É justamente nesse vazio, entre o risco e a resposta, que o setor começa a se posicionar, ampliando sua atuação para além da proteção patrimonial e passando a integrar uma rede de apoio às vítimas de violência doméstica e sexual.
Quando o seguro viabiliza a saída
Se, por muito tempo, o seguro esteve associado à proteção de bens, hoje algumas iniciativas começam a olhar para um tipo de risco que não cabe em uma apólice tradicional: o de permanecer em um ambiente de violência.
Na Tokio Marine, esse movimento aparece na adaptação de uma cobertura já existente. A tradicional proteção de Despesas com Aluguel, dentro do seguro residencial, passou a contemplar também situações de violência doméstica, permitindo que a mulher deixe o ambiente de risco e tenha condições de se estabelecer temporariamente em outro local.
Na prática, isso significa transformar uma cobertura financeira em possibilidade concreta de saída. Além do reembolso do aluguel por até seis meses, a solução inclui assistência 24 horas, com orientação jurídica e apoio psicológico online.
“A ideia é garantir que, em situações de violência doméstica, a mulher tenha condições de sair de casa e se mudar para um local mais seguro”, explica Magda Truvilhano, superintendente de Produtos RD Massificados. Segundo ela, a iniciativa amplia o papel do seguro ao oferecer suporte em um dos momentos mais críticos. “Sabemos que nenhuma solução isolada resolve o problema, mas entendemos que é uma forma de contribuir com proteção e acolhimento.”
Ao ser distribuída por corretores em todo o país, a cobertura também amplia seu alcance, transformando informação em acesso e, muitas vezes, acesso em decisão.
Rede de apoio também é produto
Mais do que coberturas financeiras, parte do mercado de seguros começa a estruturar algo menos visível, e, muitas vezes, mais decisivo: redes de apoio. Em um cenário em que a violência doméstica e sexual ainda é cercada por silêncio, inclusive dentro das empresas, algumas seguradoras passam a entender que proteger também é orientar, acolher e encaminhar.
Na AXA, esse movimento se traduz na Assistência Maria, um serviço integrado a alguns produtos que oferece suporte jurídico, emocional e acesso a serviços de saúde para mulheres em situação de risco. A iniciativa parte do reconhecimento de que a violência vai além do dano físico. “Ela traz impactos emocionais e jurídicos que muitas vezes impedem decisões rápidas e seguras”, afirma Alexandre Campos, vice-presidente da companhia.
A proposta é atuar justamente nos momentos mais críticos, conectando a mulher a redes de apoio com rapidez e discrição. “O setor de seguros tem experiência em gestão de risco e construção de redes de suporte. Quando aplicamos isso a temas sociais, conseguimos gerar soluções concretas de apoio”, diz.
Esse olhar também se estende ao ambiente corporativo. Com o programa AXA Safe Spaces, a seguradora capacita colaboradores a reconhecer sinais de violência e orientar caminhos de ajuda. “Em muitas situações, o trabalho é o único espaço onde a vítima consegue respirar ou pedir ajuda. Tratar isso como assunto pessoal reforça o isolamento”, afirma Campos.
O treinamento ensina a identificar sinais nem sempre visíveis: como isolamento, medo constante ou queda de rendimento, e a agir com empatia e direcionamento. “Acolher não é ser especialista. É criar um ambiente seguro para escuta e orientar o caminho correto”, resume.
Ao integrar serviços, assistência e cultura organizacional, o seguro começa a assumir um papel mais amplo: o de conectar proteção financeira a uma rede real de apoio.
Proteção, acolhimento e recomeço como estratégia
Em outra frente do mercado, a proposta não é adaptar coberturas existentes, mas já nascer com esse olhar. Na BVIX Seguradora, o Seguro Amparo Mulher foi estruturado como uma solução voltada diretamente para situações de vulnerabilidade, incluindo a violência doméstica.
A lógica é integrar proteção financeira com serviços assistenciais, combinando indenizações com apoio prático em momentos de ruptura. Entre os recursos disponíveis estão suporte psicológico, telemedicina, cobertura por perda de renda e um amparo financeiro específico em casos de violência.
“O produto foi pensado para atuar em três pilares: proteção, acolhimento e recomeço”, afirma o diretor comercial Adalber Alencar. Segundo ele, já houve acionamentos relacionados à violência doméstica, nos quais o seguro cumpriu o papel de oferecer suporte imediato. “Ele deixa de ser apenas indenização e passa a ser uma rede real de proteção.”
O movimento aponta para uma mudança mais ampla dentro do setor: a de compreender que, em determinados contextos, proteger não é apenas reparar perdas, mas criar condições para que a vida possa seguir.
Mesmo no extremo, o seguro protege em vida e para quem fica
A cada dia, quatro mulheres são assassinadas no Brasil, a maioria dentro de seus próprios lares, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, um dado que transforma estatística em ausência, famílias desfeitas e histórias interrompidas. É nesse cenário extremo, quando a violência chega ao seu limite mais brutal, que o seguro também cumpre um papel importante, ainda que pouco discutido. Mas antes mesmo de chegar a esse ponto, ele já pode atuar como suporte em vida.
Para André Calazans, diretor de Seguros e Subscrição da Azos, o seguro de vida precisa ser compreendido para além da cobertura por morte. “O seguro pode atuar como uma camada importante de proteção financeira em situações de vulnerabilidade, inclusive em casos de violência doméstica”, explica. Segundo ele, muitas apólices já contam com coberturas em vida, como indenização por invalidez permanente ou afastamento por incapacidade temporária, que podem ser acionadas quando a violência gera impactos físicos e compromete a renda da mulher.
Além da proteção financeira, algumas soluções também incorporam serviços de assistência que ajudam em momentos críticos. “Hoje já existem coberturas que incluem orientação psicológica, suporte jurídico e serviços emergenciais. Mais do que um produto financeiro, o seguro passa a ter um papel de suporte em situações inesperadas, ajudando a garantir autonomia e segurança em um momento de ruptura”, afirma.
Quando a violência chega ao extremo do feminicídio, o seguro assume outro papel: o de proteger quem fica. Nesses casos, a indenização segue a regra de beneficiários definida na apólice, sendo destinada às pessoas indicadas pela própria segurada no momento da contratação. Na ausência dessa indicação, a legislação brasileira estabelece uma ordem de prioridade, geralmente envolvendo cônjuge, companheiro(a) e herdeiros legais.
Calazans destaca um ponto essencial nesse contexto: “Em situações em que o beneficiário esteja envolvido no crime, ele perde automaticamente o direito à indenização, conforme previsto em lei”. A medida impede que a violência gere qualquer tipo de benefício ao agressor e preserva o caráter ético do seguro como instrumento de proteção.
Por se tratar de um tema sensível, a seguradora não divulga casos individuais. Ainda assim, o movimento do mercado é claro. “As coberturas em vida têm ganhado cada vez mais relevância justamente por atenderem a situações inesperadas que impactam diretamente a renda e a estrutura familiar”, afirma. Para ele, esse avanço reforça uma mudança importante de percepção: o seguro de vida deixa de ser visto apenas como proteção no fim da vida e passa a ser entendido como uma ferramenta de suporte em diferentes momentos, inclusive nos mais difíceis.
Um mercado que começa a assumir responsabilidade
Para quem atua no acolhimento, o movimento do setor é importante, mas ainda inicial. Claudia Helena reforça que há espaço para avançar.
“O mercado pode oferecer suporte imediato, acesso seguro e integração com a rede de proteção. Muitas vezes, esse primeiro contato precisa ser silencioso e acolhedor”, afirma.
A avaliação é reforçada por Camila Máximo, presidente da Sou Segura, associação que atua pela equidade de gênero no mundo corporativo. Para ela, apesar dos avanços recentes, ainda existe um descompasso entre a realidade enfrentada pelas mulheres e as soluções oferecidas pelo setor.
“O mercado de seguros evoluiu, mas ainda há uma distância entre o que as mulheres vivem e o que os produtos conseguem atender. Já existem iniciativas importantes, mas ainda pontuais. O desafio agora é ganhar escala, com soluções mais estruturadas e sensíveis à realidade de vulnerabilidade dessas mulheres”, afirma.
Segundo ela, esse cenário abre espaço não apenas para inovação, mas para responsabilidade. “Esse é um ambiente propício para inovação e, acima de tudo, para o exercício da responsabilidade social do setor.”
Camila destaca que o avanço passa por uma mudança prática. “O amparo precisa ir além da indenização, ele deve ser integrado. Isso envolve desde apoio psicológico e orientação jurídica até suporte financeiro e serviços emergenciais.”
Outro ponto central é o acesso. “O seguro precisa ser uma porta aberta, com menos burocracia, menos barreiras e mais segurança para quem precisa acionar esse suporte.”
Ela também reforça o papel da informação. “O mercado pode ampliar a conscientização, mostrando que o seguro pode ser uma ferramenta real para que a mulher encontre caminhos para sair da violência.”
Nesse contexto, o papel dos corretores ganha ainda mais relevância. “Eles estão na linha de frente, conhecem o contexto dos clientes e podem atuar como agentes de proteção e orientação.”
Para Camila, o momento exige uma redefinição do próprio conceito de proteção. “O mercado sempre falou sobre proteger. Agora, precisa tornar essa proteção mais humana, mais inclusiva e mais alinhada com a realidade da sociedade.”
Quando proteger vira presença
A mulher de Belo Horizonte hoje não vive mais sob medo. Mas a parte mais difícil da história dela não foi reconhecer a violência, foi encontrar condições reais para mudar de vida.
É exatamente nesse ponto que o mercado de seguros começa, ainda de forma tímida, a ocupar um espaço que antes não existia. Não como solução definitiva, mas como parte de uma rede que transforma risco em possibilidade, e vulnerabilidade em escolha.
Porque, no fim, a diferença entre ficar e sair raramente é só coragem. É estrutura.
E, em um país onde milhares de mulheres ainda precisam fugir para sobreviver, proteger não pode ser apenas uma promessa escrita em uma apólice.
Precisa ser, na prática, o que permite que uma vida continue.
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