8 de maio de 2026
Por 🏆 Julia Schneider
A cabeça que existe
No interior do Ceará, existe uma gigantesca cabeça de Santo Antônio abandonada no meio de um muro de uma casa. Há quase 40 anos, a cabeça permanece separada do corpo da estátua.
No alto do Morro do Serrote, no município de Caridade, está o corpo inacabado do santo. A quase três quilômetros dali, em meio às casas simples da Rua Cento e Dois, repousa a cabeça gigantesca, transformada em parte da paisagem da cidade e da memória dos moradores.
O projeto começou em 1984. A ideia do então prefeito Raul Linhares era transformar Caridade em um polo de turismo religioso, seguindo os passos da vizinha Canindé, conhecida pelas romarias dedicadas a Santo Antônio. Mas a construção foi interrompida em 1986 por falta de recursos. E a cabeça, moldada no chão, nunca conseguiu chegar até o corpo.
Em Caridade, existem várias versões para explicar o que aconteceu. Há quem diga que a estrutura ficou pesada demais para subir o morro. Outros contam que os ventos fortes do Serrote tornariam impossível sustentar a cabeça no topo. O fato é que ela permaneceu no chão, e ali acabou ganhando uma vida própria.
Até hoje, a enorme cabeça faz as vezes de muro em frente à casa onde morava o engenheiro responsável pela obra. Com o tempo, virou ponto de curiosidade, lenda local e símbolo da cidade. E existe um detalhe que parece saído diretamente de um romance de realismo mágico: durante um período, um homem chegou a morar dentro da cabeça do santo.
O livro
Foi essa imagem, ao mesmo tempo estranha, mística e profundamente brasileira, que inspirou Socorro Acioli. E sinceramente? Poucas premissas literárias me pareceram tão originais logo de cara.
“O tempo de sonhar é em cima da terra”. Sabe aquele livro que você não quer que acabe? Que você termina já sentindo saudade dos personagens, da atmosfera e daquele universo tão único? Foi exatamente assim comigo lendo A Cabeça do Santo.
A obra mistura realismo mágico, poesia, humor, religiosidade popular e muita brasilidade. Um estilo que lembra Ariano Suassuna encontrando Gabriel García Márquez no sertão nordestino. Mas, ao mesmo tempo, tem uma identidade muito própria. A escrita de Socorro é delicada, sensível e profundamente magnética. Você não apenas lê: você vê, escuta e sente cada página.
A jornada começa quando Samuel, após a morte da mãe, atravessa o sertão em busca da avó e do pai que nunca conheceu. Sem rumo e completamente exausto, ele encontra abrigo justamente dentro da cabeça oca daquela gigantesca estátua de Santo Antônio, nos arredores da pequena cidade de Candeia.
E é dali, de dentro da cabeça do santo, que a história ganha contornos ainda mais encantadores. Samuel começa a ouvir as preces das mulheres da cidade pedindo amor, casamento, companhia, reconciliações, respostas. Ao lado do queridíssimo Francisco, ele passa a interferir discretamente na vida dessas pessoas, criando encontros, coincidências e pequenas revoluções afetivas que vão mudando não apenas os personagens, mas a própria cidade.
E o mais bonito é que nada disso acontece de forma caricata ou exagerada. O realismo mágico aqui funciona como extensão da fé popular, dos desejos humanos e da solidão das pessoas. Existe humor, mas também melancolia. Existe crítica social, mas sempre atravessada por afeto e humanidade.
É impossível não se apegar aos personagens. Samuel tem aquela doçura silenciosa dos protagonistas que carregam mais dor do que conseguem dizer. Francisco é absolutamente cativante. Chico Coveiro parece saído de uma lenda oral nordestina. E Candeia vira personagem também: uma cidade parada no tempo, cheia de calor, carência, fé, boatos e sonhos acumulados.
Com pouco mais de 170 páginas, é daqueles livros que a gente devora rápido, mas que permanecem ecoando depois. Um retrato lindo do sertão nordestino, da religiosidade popular e da força dos sonhos, sempre com aquele toque de fantasia que, paradoxalmente, faz tudo parecer ainda mais verdadeiro.
Afinal, como diz Socorro Acioli: “O tempo de sonhar é em cima da terra”.
A Cabeça do Santo vai virar filme
Talvez uma das maiores provas da força dessa história seja justamente o fato de ela continuar crescendo para além da literatura. A Cabeça do Santo já teve adaptação para o teatro e agora também vai ganhar um filme já confirmado, previsto para estrear no próximo ano.
E, de fato, o livro é extremamente visual. Dá para imaginar perfeitamente a fotografia quente do sertão, a imponência daquela cabeça gigante perdida no meio da paisagem, as romarias, as ruas de Candeia, os silêncios, as rezas, as cores e a atmosfera quase mística que envolve tudo.
Acredito que exista muito potencial para sair das páginas e ganhar vida em um grande filme do cinema nacional.
Carnaval 2027
Outra notícia que achei maravilhosa: A Cabeça do Santo também vai virar samba-enredo da Unidos da Tijuca no Carnaval de 2027. Poucos livros parecem tão naturalmente carnavalescos quanto esse.
E existe algo muito bonito nisso tudo: ver uma obra literária brasileira contemporânea ultrapassando as páginas e ocupando outros espaços da cultura popular. Teatro, cinema, Carnaval. É muito mágico acompanhar isso.
Uma história de fé, amor, escuta e brasilidade que vale cada página. Amei.
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