Por Sonho Seguro
A consolidação do setor de saúde suplementar ganha um novo capítulo com a criação da Bradsaúde, empresa que passa a reunir todos os negócios de saúde do Bradesco e será listada no Novo Mercado da B3. O anúncio foi feito em coletiva de imprensa inédita, realizada de forma conjunta pelo banco e pelo grupo segurador, com a presença das principais lideranças da organização.
O Bradesco permanecerá com 91,35% da nova companhia. No início do pregão, as ações chegaram a subir quase 30%, liderando as altas do Ibovespa, em sinal de recepção positiva por parte do mercado. O banco pretende realizar uma oferta para ampliar o free float e atender ao mínimo de 25% exigido pelo Novo Mercado, além de solicitar à B3 um waiver temporário.
Para o presidente do Banco Bradesco, Marcelo Noronha, o valor de mercado da Bradsaúde pode ficar entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões, mais próximo do teto, a depender da precificação. Ele destacou que a operação tende a gerar impacto positivo para o banco, uma vez que ativos hoje contabilizados pelo valor histórico passarão a refletir valor de mercado após a listagem. “É tudo de bom para a organização”, afirmou, ressaltando que o movimento fortalece o pilar de seguridade no modelo de negócios do grupo.
Embora concorrentes já tenham avançado na verticalização — como Dasa com Amil e SulAmérica com Rede D’Or — o IPO reverso é considerado histórico por reunir, sob uma única estrutura, operadora de saúde, odontologia, hospitais, clínicas, tecnologia e participação relevante em diagnósticos.
O presidente dos conselhos de administração do Bradesco e da Odontoprev, Luiz Carlos Trabuco Cappi, classificou a operação como o maior IPO reverso da história do País. Segundo ele, a estrutura — com a Bradsaúde substituindo a Odontoprev na B3 — permite acelerar etapas e reduzir custos em comparação a uma oferta tradicional. “Essa junção nos dá a possibilidade de listar a companhia em 60 dias”, afirmou, ressaltando que a transação ainda depende de aprovações regulatórias.
A Bradsaúde nasce da consolidação de ativos como Bradesco Saúde, Odontoprev, Atlântica Hospitais e Participações, Mediservice, Orizon e Meu Doutor Novamed, além de investimentos em oncologia por meio da Croma e da participação de 25% no Grupo Fleury. Considerando números consolidados de 2025, a nova companhia estreia com receita de R$ 52 bilhões, lucro líquido de R$ 3,6 bilhões, ROE de 24%, mais de 13 milhões de beneficiários, cerca de 3.600 leitos hospitalares e 35 clínicas de atenção primária.
“A Bradesco Saúde é a maior seguradora de saúde do País, a Odontoprev alterna entre o primeiro e o segundo lugar no segmento odontológico e o Fleury é referência em medicina diagnóstica”, afirmou Ivan Gontijo, presidente do Grupo Bradesco Seguros. Ele lembrou ainda a joint venture com a Rede D’Or e as participações hospitalares, como no Grupo Santa, além de parcerias com Einstein e Mater Dei.
Do ponto de vista estratégico, a criação da Bradsaúde é vista como movimento estruturante para sustentar crescimento orgânico e seletividade em aquisições em um setor pressionado por custos médicos acima da inflação.
Trabuco ressaltou que a robustez da operação decorre de uma construção iniciada em 1983, quando o grupo passou a atuar em planos de saúde. Segundo ele, a junção entre a força financeira do banco e a experiência da seguradora evidencia a penetração do Bradesco no mercado brasileiro. A nova empresa nasce com balanço sólido, escala relevante e capacidade de escalabilidade, elemento essencial no negócio de seguros, sustentado pela lei dos grandes números.
Ivan Gontijo reforçou que a companhia não começa do zero: carrega mais de quatro décadas de experiência enfrentando desafios da saúde suplementar. Reconheceu as pressões do setor, mas afirmou que a empresa já desenvolveu capacidade de adaptação, mantendo foco na qualidade assistencial. Destacou ainda a necessidade de ampliar o acesso com soluções mais acessíveis e regionalizadas, ajustadas às características de cada mercado.
Carlos Marinelli, que assumirá a liderança executiva da Bradsaúde, afirmou que o setor continuará passando por transformações. Com cerca de 53 milhões de beneficiários em planos de saúde e mais de 35 milhões na odontologia, trata-se de um mercado estruturalmente relevante. Segundo ele, a integração do ecossistema — atenção primária (Meu Doutor Novamed), rede hospitalar (Atlântica), tecnologia e dados (Orizon) e diagnóstico precoce (Fleury) — permitirá ganhos de eficiência, maior resolutividade e expansão do acesso.
Marinelli destacou que o objetivo não é apenas ampliar escala, mas gerar valor superior à saúde brasileira, com foco em prevenção e longevidade. O principal vetor de crescimento segue sendo o segmento de pequenas e médias empresas, considerado o motor da economia e a principal alavanca de expansão do grupo.
Encerrando a coletiva, Trabuco enfatizou que o movimento vai além de uma reorganização societária. Segundo ele, a Bradsaúde reforça a cultura de atenção à saúde e suporte à longevidade. A companhia pretende ser o melhor lugar para beneficiários, profissionais de saúde, corretores e investidores. Para o executivo, saúde suplementar exerce papel institucional fundamental, atuando como complemento à saúde pública. “Por mais forte que o Estado seja, ele não consegue atender 100% das necessidades de atenção à saúde”, afirmou.
O CEO da Odontoprev, Elsen Carvalho, reforçou durante a coletiva que todos os detalhes da transação seguem rigorosamente as regras do mercado de capitais e os dispositivos regulatórios aplicáveis. Segundo ele, as informações divulgadas estão formalmente comunicadas à B3 e devem respeitar os pareceres da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), além do estatuto social da companhia.
Carvalho destacou que o conselho de administração da Odontoprev é atualmente independente e foi o responsável por conduzir a análise e a aprovação dos termos da operação. A partir da proposição da transação, foi estabelecida uma relação de troca, que resultará na participação dos atuais acionistas da Odontoprev em 8,55% da nova companhia, dentro da estrutura anunciada ao mercado.
O executivo ponderou que eventuais etapas futuras dependem de aprovações formais e não podem ser antecipadas além do que já foi comunicado oficialmente. A operação, conforme já explicado por Luiz Carlos Trabuco, Marcelo Noronha e Carlos Marinelli, envolve a incorporação de todos os ativos e negócios de saúde do Grupo Bradesco na estrutura hoje listada da Odontoprev, que passará a operar sob a marca Bradsaúde.
Com isso, a companhia permanece listada no Novo Mercado da B3, agora como holding do mais completo ecossistema de saúde do País, com acesso direto ao mercado de capitais. Em relação ao cronograma, Carvalho explicou que a operação foi comunicada ao mercado em fevereiro e já informada à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), cuja aprovação é condição essencial para a consumação da transação. Estão previstas assembleias gerais do banco e da Odontoprev nas próximas semanas — com convocação ainda em fevereiro e deliberações ao longo de março e abril. À medida que as aprovações regulatórias e societárias forem obtidas, a companhia poderá formalizar a mudança de nome e iniciar a negociação das ações sob a nova denominação na B3. Até lá, todas as etapas seguirão o rito regulatório previsto para operações dessa natureza.
Para finalizar, Cappi demonstrou entusiasmo ao comentar a criação da Bradsaúde e fez questão de enfatizar que, mais do que uma reorganização societária, o movimento reforça a cultura e o propósito do grupo na área de saúde. Segundo ele, o que distingue a Bradesco Saúde é justamente a cultura de atenção à saúde e de suporte à longevidade, valores que agora passam a estruturar a nova companhia.
Trabuco fez um paralelo com os princípios que norteiam o banco e a seguradora. No banco, afirmou, o objetivo é ser o melhor lugar para o cliente tomar crédito e fazer investimentos, o melhor lugar para o acionista investir seu dinheiro e o melhor ambiente para se trabalhar. Na seguradora, a ambição é semelhante: ser o melhor lugar para o segurado proteger sua vida, seu patrimônio e sua longevidade, além de ser o melhor espaço para os corretores colocarem sua produção.
Ao tratar especificamente da Bradsaúde, ele ampliou o conceito de “melhor lugar” para incluir todos os públicos estratégicos. A nova companhia pretende ser o melhor lugar para participantes de planos e segurados confiarem suas vidas e angústias, já que a saúde, segundo ele, é um processo dinâmico. Também quer ser o melhor ambiente para os profissionais de saúde — médicos, enfermeiros e demais especialistas — que, nas palavras de Trabuco, são fundamentais para a cultura e o propósito da empresa, que ele definiu como uma companhia de medicina e de saúde.
O executivo destacou ainda o compromisso com investidores e acionistas, lembrando que a empresa nasce com a base de acionistas da Odontoprev e poderá ampliar sua base societária no futuro, por meio de oferta subsequente de ações. Para ele, a nova estrutura reforça um compromisso social num contexto em que saúde e longevidade se tornaram temas centrais.
Trabuco ressaltou que o século XX deixou heranças importantes, como o respeito à diversidade, o avanço das mulheres e o aumento da longevidade, e que, no século XXI, essas questões ganham ainda mais relevância. Nesse cenário, afirmou, o Brasil enfrenta desafios e a saúde suplementar cumpre papel institucional relevante. “Por mais forte que o Estado seja, ele não consegue atender 100% das necessidades de atenção à saúde”, disse, defendendo que a saúde suplementar atua como braço adicional à saúde pública, complementando-a e funcionando em paralelo.
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